Fotos de satélite mostram estruturas milenares na Amazônia e reforçam importância arqueológica diante de ameaças da expansão agrícola
Imagens recentes revelaram novos detalhes dos geoglifos do Acre, grandes figuras geométricas escavadas no solo amazônico que só podem ser plenamente observadas do alto. Esses registros arqueológicos, associados a antigas civilizações da região, reforçam a importância histórica e cultural da ocupação humana na Amazônia muito antes do período colonial.
Os geoglifos são estruturas formadas por valas e elevações de terra que desenham formas geométricas de grandes proporções. Embora as linhas de Nazca, no Peru, sejam o exemplo mais conhecido desse tipo de manifestação na América do Sul, o Acre reúne mais de mil desses registros, distribuídos em diferentes áreas do estado.
Parte desses sítios arqueológicos já foi reconhecida oficialmente, com alguns exemplares tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Além do valor histórico, os geoglifos também têm relevância cultural, sendo associados a possíveis espaços sagrados utilizados por povos indígenas no passado. O mistério sobre sua origem e função também contribui para o interesse turístico na região.

As novas imagens foram produzidas pela SCCON Geospatial, empresa brasileira especializada em tecnologia geoespacial, a partir de dados coletados por satélites da Planet, companhia norte-americana. Os registros permitem visualizar os desenhos em sua totalidade, destacando a complexidade e a escala dessas estruturas, que muitas vezes passam despercebidas ao nível do solo.
Apesar dos avanços na documentação visual, muitas questões sobre os geoglifos ainda permanecem sem resposta. Pesquisas conduzidas pelo Iphan desde a década de 1970 buscam esclarecer quando, como e por que essas estruturas foram construídas. Segundo o instituto, compreender esses sítios é fundamental para reconstruir a história do povoamento da Amazônia ao longo de milênios.
Ameaçados pelo agro
Ao mesmo tempo, os geoglifos enfrentam ameaças crescentes relacionadas à expansão de atividades agrícolas na região. Mesmo incluídos na Lista Indicativa para Patrimônio Mundial da UNESCO, esses sítios têm sido alvo de intervenções que comprometem sua integridade.
Um dos casos mais recentes ocorreu em março, quando intervenções foram registradas nos geoglifos Missões e Nakahara 73, no município de Senador Guiomard. As alterações teriam sido realizadas para preparar o solo para o plantio de soja. Diante disso, o Ministério Público Federal (MPF) firmou um acordo com o Iphan para reparar os danos causados às estruturas originais.

Situações semelhantes já haviam sido registradas anteriormente. Em 2020, o Iphan acionou a Justiça Federal após identificar que três geoglifos haviam sido aterrados durante atividades agrícolas. Esses episódios reforçam o desafio de conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação do patrimônio histórico e arqueológico.
Em resposta aos riscos de degradação, a Justiça Federal suspendeu, em 2025, normas que flexibilizavam o licenciamento ambiental para atividades agropecuárias em áreas rurais consolidadas no Acre. A decisão atendeu a denúncias de possíveis danos irreversíveis tanto aos geoglifos quanto a territórios indígenas, repercute a Revista Galileu.
Diante desse cenário, a preservação dos geoglifos do Acre permanece como uma questão central para pesquisadores e autoridades. Além de seu valor científico, essas estruturas representam um importante testemunho das sociedades que habitaram a Amazônia no passado, oferecendo pistas ainda não totalmente decifradas sobre suas formas de organização e relação com o ambiente.


